ENTREVISTA


Entrevista por:

Ana Margarida Alexandre


Aluna do curso de doutoramento "Métodos de Conhecimento da Prática Artística Contemporânea"

Universidade de Vigo - Faculdade de Belas Artes.

Trabalho para tese sobre os artistas Abstractos Portugueses no séc. XXI



O PROCESSO CRIATIVO


Ana Margarida Alexandre - Quais as fontes de inspiração ou motivação que estão na origem das sua obras?

Paulo Canilhas - A minha vivência pessoal tem seguramente influência no resultado das minhas obras. De tempos a tempos um tema especifico aparece ou é sugerido e uma série de trabalhos vem especificamente sobre esse assunto, mas o mais normal é mesmo a minha mente, baseada no meu dia-a-dia, “desenhar” as linhas daquilo que são construídos os meus trabalhos


O início de uma obra é para si a fase mais difícil?

As ideias surgem a qualquer altura, seja no escritório ou no repouso em casa. Depois há uma acumulação de pensamentos/imagens que em determinado ponto me “obrigam” a ir para o atelier e descarregar nas bases/telas todo o trabalho mental acumulado. Diria talvez que o momento crucial é quando não dá para acumular mais ideias e me jogo ao trabalho seja ele com a pintura ou com as instalações em chapa. E sim, é nessa altura, no inicio do trabalho, que mais tenho que dar de mim, que mais energias me faz despender.


O trabalho surge espontaneamente ou faz esboços prévios?

Se não contabilizarmos os “esboços mentais”, então, na sua grande maioria, o trabalho surge espontaneamente, directo da cabeça para a tela. No entanto, nunca parto do vazio, se não tiver a mente cheia de imagens para um quadro ou para uma série de instalações o máximo que poderei

fazer no atelier é mesmo preparar telas e bases para futuras obras.


Qual pensa ser o traço mais característico da sua personalidade como artista?

Esperando não parecer muito pretensioso diria que INOVADOR ou EMPREENDEDOR.




TÉCNICA E MATERIAIS


Que técnicas e materiais utiliza e como estes influenciam o resultado e sentido da sua obra?

Desde o inicio que a minha actividade é fértil em generosas misturas de materiais para além da tinta(óleo ou acrílico). Sempre mantive essa característica e foi ela que me levou até à descoberta daquele que é hoje o meu material de eleição para a execução dos meus trabalhos, as chapas de alumínio. Cabeceiras de Camas, Portas de armários, areia, limalha de ferro ferragens leca entre uma lista interminável de referências fazem parte das minhas “matérias primas” de criação. Se estes materiais influenciam o resultado da minha obra? ...sem dúvida.


Considera que os aspectos formais e as técnicas utilizadas na sua produção artística estão ligados aos conteúdos temáticos?

Em certas séries de trabalhos sim, na maioria da minha obra não.


Há regras no seu trabalho, com os materiais que utiliza?

Sim, regras que tem a ver com o bom manuseamento dos materiais e das ferramentas necessárias para os trabalhar.


Como processa os trabalhos da técnica mista?

Bom... normalmente como qualquer outro trabalho. Há sempre a fase inicial de contemplação da matéria à disposição para o trabalho, depois de tacteado apalpado e explorado chega a altura em que os materiais são todos tratados da mesma forma, e uns a seguir aos outros, todos terão a sua vez de ser aplicados no painel a ser trabalhado.



PERCEPÇÃO DO ARTISTA E DO ESPECTADOR PERANTE A OBRA


No final de cada trabalho sente que obteve os seus objectivos?

Quando acabo um trabalho fico quase sempre com uma sensação de “insatisfação” pois raramente o trabalho espelha fielmente o fim que tinha previsto para ele. Não quer dizer que o ache menos conseguido, mas, não era o que tinha em mente.
Por norma quando acabo um trabalho o que mais me apetece é iniciar outro


Os seus quadros podem ser lidos como um diário da sua vida criativa?

Sim, talvez seja possível fazer essa leitura. Se juntar os trabalhos de diferentes fases talvez se possa notar a evolução a procura de novas texturas de novas linhas, e eventualmente descobrir certos aspectos que estão presentes desde os inicio até à actualidade. Por esse prisma sim podemos considerar cada quadro como uma página desse diário criativo/ artístico.

Que balanço faz na evolução das suas obras?

Positivo, no sentido de que cada vez mais sinto que estou próximo de uma linha que será “a minha” no mundo das artes.

Tem objectivos de comunicação, expressão e sensações previamente definidas, para os seus trabalhos?

Há sempre o objectivo de comunicar.

No entanto nem sempre quero contar uma história, relatar um acontecimento ou seja o que for, cada trabalho pode ser apenas um grito um chamamento ou um suspiro por exemplo e cada trabalho espera do espectador uma reacção um olhar apenas que seja, e se assim for, o objectivo de comunicar foi cumprido.


As sensações que as pessoas possam vir a sentir na observação das suas obras, é motivo de reflexão?

Sendo um artista muito individualista, (não conseguiria dividir o meu atelier com ninguém), não sou no entanto um artista egoísta ao ponto de trabalhar só para mim. É neste sentido que as sensações que o publico tem ao ver o meu trabalho me preocupam e se tornam importantes para o meu desenvolvimento como artista.


Reflecte na hipótese da sua pintura não ser “entendida” pelo espectador?

Não pretendo que o meu público ENTENDA a minha obra, preocupo-me sim que o meu público se sinta provocado por ela, que tire a sua leitura pessoal de cada trabalho que veja.




ABSTRACÇÃO IMPURA CONTEMPORÂNEA

EM PORTUGAL

Contexto e referências


Acha que a abstracção contemporânea está em transformação profunda, abrindo novos horizontes na pintura portuguesa?

Seguramente que sim. As galerias tem um papel muito importante neste factor. Levar os nossos artistas mais longe quer a certames internacionais quer mesmo cá dentro, fará evoluir a arte em geral e obrigatoriamente a ABSTRACÇÃO. Esse facto tem vindo a acontecer, em pequena escala na minha opinião, mas vai acontecendo e se a mudança não é rápida, será ao ritmo do investimento que fazemos na arte em Portugal.


Acha que pintura abstracta portuguesa está no circuito das grandes exposições nacionais e internacionais?

Vai estando. Não com a força que gostaria de ver mas...


O que acha do futuro dos artistas abstractos em Portugal?

Difícil. Dos Abstraccionistas, dos Surrealistas, dos Hiper-realistas, ...de todos os artistas.


Existe algum artista de referência no seu trabalho?

Não. Na realidade vejo muita arte, quer em galerias quer na web mas não tenho actualmente nenhum artista como referência. Tenho muitos que admiro mas não como referência base para as minhas obras.

No passado sim, quando passei por uma apaixonada fase de CUBISMO em que Picasso e Amadeu de Sousa Cardoso era uma referência inevitável sucedida pelo SURREALISMO em que Salvador Dali e o nosso Cruzeiro Seixas faziam as minhas delicias e as suas obras a minha “Bíblia” de consulta diária. Depois, com o tempo, “libertei-me” dessas ligações e tento encontrar o meu caminho, os meus materiais o meu horizonte.


No contexto da sociedade actual, quais lhe parecem ser as principais influências que possam ter modulado os dados visuais na sua obra?

Uma vez mais, as dificuldades, a vivência pessoal as alegrias e tristezas da vida.

As questões financeiras não podem ficar fora destas influências.

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